quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A minha vó do coração agora é uma estrela do céu.

Viu-me nascer a mim e aos meus irmãos. Criou-nos como se criam os netos. Os netos de verdade. De sangue. Olhou sempre por nós. Fez-nos ser da família. Ela e os dela foram sempre mais que família. Cozinhou para mim, mimou-me, ralhou-me, lavou-me as mãos e a cara quando me sujava na terra do quintal. Deixava-me dar o milho às galinhas e o farelo aos coelhos. Mandava-me fazer-lhe recados. Era a minha avó. Foi a única que verdadeiramente tive. A única com quem convivi. A minha vó Lininha.
 
 Só ela soube tratar de mim no dia em que a minha barriga quase rebentou de dores, com uma apendicite aguda. Só ela me soube carregar ao colo de forma a minimizar a minha dor física. E era ela que estava à porta de casa à minha espera, com aquele sorriso e com aqueles olhos cor de céu, no dia em que tive alta do hospital. "Anda cá minha menina, que agora trato eu de ti..."
 
Chamo-me Susana porque esse é o nome de uma das netas de sangue dela. A minha prima de coração. Companheira de brincadeiras durante o tempo das férias da escola. Herdei-lhe o nome e as roupas que deixavam de servir. Vesti-as todas orgulhosamente. Herdei-lhe muitos brinquedos, que mesmo usados eram preciosidades para mim.
 
Esta avó era das mulheres mais fortes e despachadas que eu conheci. Ainda consigo fechar os olhos e escutar o barulhos dos chinelos a bater nas escadas de pedra lá de casa. Ela descia e subia aquelas escadas com uma perícia e rapidez que só visto e só ela.
 
Fecho os olhos e consigo sentir o perfume das sardinheiras que estavam em cada degrau dessas escadas. Os vasos que ela adorava e tratava tão bem. Nas mãos dela, tudo floria. As vindimas que fazíamos na ramada. As uvas americanas do quintal de baixo, que ela apanhava para nós antes de irem para o lagar e para a prensa.
 
A minha vó Lininha que esteve presente no meu casamento fez ontem 7 anos e que me deu um abraço e um beijinho de avó à séria e esteve presente na minha festa como se uma neta de sangue eu fosse.
 
A doença não foi meiga com ela e custa-me saber disso, porque não lhe pude valer como ela me valeu a mim tantas vezes.
 
Eu acho que ela esperou pelo dia de hoje de propósito. Obrigada vó Lininha.
 
Cristalizei todos os nossos bons momentos. Foram tantos, mas tantos. Que bom que é ter-te como avó.
 
Um dia voltamos a ver-nos.



2 comentários:

  1. Que ternura... Um beijinho para ti também pois da forma como falas foste, de certeza, um orgulho de neta para a vó Lininha... Podia não ser avó de sangue mas havia um vinculo mais forte entre vocês... o do coração.

    ResponderEliminar
  2. Os meus sentimentos, minha querida!
    Adorei o teu texto e a meiguice com que falas desta avó!
    Aposto que a amarás para sempre.
    Beijocas

    ResponderEliminar